Contos Insanos

19

de
setembro

A mulher que não sonhava

Alguma vez em sua vida, em qualquer manhã, já parou para pensar na (des) importância do sonhar? Leituras diferentes são feitos sobre esse fenômeno perturbador e desejável o qual julgo ser genuinamente “humano”(se ainda o somos).Desde os mais antigos que acreditava em um contato cósmico até o austríaco observador que,sentados em restaurantes, descobriu-se pai de algo que colaborou cientificamente para as ciências humanas.
Perderíamos, talvez, nossas esperanças, forças, expectativas se não possuíssemos esse sonhar, digo-lhe sobre o sonhar inconscientemente. Sonhar este que Nayara não teve consciência, ou melhor, inconsciência em uma madrugada tranqüila,como todas as outras a qual essa mulher indigna de ter esse gênero vivia todos os dias.Uma noite sem o sonhar.Normal.Não são todas as noites que nos lembramos que sonhamos, mas e quando sabemos que não soubemos sonhar?
-Um vazio-respira Nayara
Seu corpo magricelo, nada sensual,atraente,apenas uma pele com uma cor feia e cinza que encobre ossos.Completamente suado sobre uma cama de casal que nunca havia sido uma verdadeira cama de casal.É como um casamento piedoso: dura anos, décadas,mas nunca foi um casa(l)mento.
-Um copo de leite, uma televisão tediosa e….pronto volto a dormir e dessa vez sonhar em qualquer coisa.
-Não posso pensar que tenho insônia,pois tenho sono,mas……

Nayara se dá conta de que não é capaz de ter certeza de que algo impossível possa acontecer em sua vida.Assustador de início,mas uma raio de luz resolveria isso.
Sete horas.
Um novo sono.
O mesmo falecer do sonhar
Ruído na rua e na mente oblíqua de Nayara.

-Para que acordar?Para um futuro incerto se nem ao menos eu quero ser algo?

Oito horas.
Uma pequena mesa com pães duros.
Talheres cobertos por formigas.
Restos de comidas da noite passada que nem havia terminada, pois
O sonhar não tinha existido. Para ter fome não é necessário desejar comer, mas.
Sentir fome, e isso nossa magricela heroína tinha naquele momento.

Os quinze minutos matinais se passam ritualmente bem, contudo uma coisa faz com que ela pense(como isso é doloroso!): “O que está por trás daquela porta”? Nayara não queria explicações herméticas fenomenológicas ou filosóficas, somente saber como sair, abrir a porta.Algo simples,não?Mas para que fazê-lo se quando nos movimentamos para ir a nossas portas estamos em busca de algo, querendo fazer algo e quando não se quer, por quê faze-lo?
Ao atravessar aquela pequena sala,se encostar na porta,abri-la e sair dela Nayara agiria como uma máquina de produção: ser ligada, receber a carga e trabalhar, ao fim da noite, desligada, sem carga, retornar ao repouso e espera um novo dia.Esperar um novo dia, como uma máquina,todavia…….. prosopopeiamente a máquina faz isso e “eu um ser humano com todos os meus atributos não tenho esse direito?”
Já havia passado o horário de trabalho, ainda nem havia escovado os dentes, o corpo seco apenas estava ereto por obrigação. Não havia o que fazer, pois não podia, ou melhor, porque não pôde sonhar. Seria o sonho de grande importância para o nosso caminhar no tempo da vida ou apenas imagens geradas por uma ininterrupta máquina aloja na nossa cabeça?
Nayara não cogitava isso tudo. Esse tudo são apenas reflexões do deus dessa história, se ele existe ou se existiu agora que foi dito que existe. O certo é que a nossa heroína apenas olhava para um livro, talvez o livro.
-Por que eu não posso abrir a porta e viver e se eu não possa fazer isso, por que aquele livro que nem nome tem me perturba tanto? Eu nunca acreditei quando me diziam que o homem sem um sonhar apenas existe, mas eu acho que agora posso levar isso a sério.
………
………….
Depois de três horas na mesma sala, no mesmo sofá, com o mesmo perturbador olhar, Nayara ergue-se, abre o livro.Abre-o e o vê como a sua mente, como a sua vida naquele fatídico pedaço de dia.As folhas de anotações do escritório voam pela sala.Nayara se esqueceu de fechar a janela.À noite, no quinto andar, venta muito.Esqueceu-se de fechar.Então com o livro, o mesmo livro ele escreve as suas primeiras linhas e logo após a janela se fecha, a sala escurece,o silencia se faz e essa pequena história termina.

17

de
setembro

Lembranças sobre um corpo

Aquele corpo lânguido, mole e imóvel repousante sob aquela cama me fez lembrar das silenciosas e nadificantes árvores do parque da cidade. Não parecia que esse mesmo corpo tivesse sido capaz de me fazer mudar totalmente a máxima feminina que diz que todos os homens são iguais.
Alisando as suas longas tranças que cobrem totalmente a sua negra nuca, Sônia observava o homem que durante toda a vida lhe foi fiel.
-Fiel?-pensava ela
Como pude e ainda posso acreditar nisso. Será que tenho piedade ou é a sinceridade que eu não aceito engolir? Isso que ocupa essa leve e consistente cama não foi igual para mim. Ele, sem abstração, desiagualdou minha vida. Deixou-a diferente, contudo simples e necessária como um copo d’água.
Eu não me lembro muito bem a primeira vez em que ele me disse que me amava sinceramente. Nenhuma mulher lembra. Finge saber e torna isso uma coisa sagrada para os homens, estes bobos como são acreditam nisso, afinal não sabem serem cínicos como nós mulheres.
Digo isso, pois somente a mulher é capaz de passar cinco anos com um homem, como eu passei, dizendo-lhe que sente orgasmos múltiplos quando na verdade múltiplos são os seus amantes.
Tive muitos, mas somente um soube me fazer compreender porquê o homem é um mal necessário.São bobos, frágeis, mas não iguais. Talvez a explicação para essa lenda seja de que nós, mulheres, que tentamos os tornam iguais, pois sempre esperamos, inutilmente, que eles do alto de sua estupidez e virilidade peniana seja capaz de compreender o emaranhado pensamento feminino a qual um dia diz que um belo vestido vermelho com uma bolsa rosa é uma coisa fantástica, mas no outro dia já acha aquilo muito brega.
Assim foi com o meu único marido. Em um eterno dia de cinco anos eu pensei que ele era a combinação perfeita para a minha vida. Só no outro dia, ou melhor, em uma longa noite de setembro no cais da suja-bela Ribeira, eu pude perceber que a situação faz o ladrão.
Naquela tarde, Sônia teve quase que uma síncope onto-psicológica,não parecia situar-se em uma sala de hospital,mas em um plano estranho existencial onde tudo lhe vinha nítido na mente.As dores, os piedosos beijos, os ardentes corpos, tudo isso foi revivido. O resto de sua vida, os olhos negros observavam com certa melancolia.
É fantástico como não podemos considerar que anos sejam sinônimos de sabedoria, segurança. Como ele, com sua barba por fazer, voz rouca, pôde fazer em uma longa noite o que eu não soube encontrar em anos. Soube que simplesmente eu era a mulher Sônia, a menina Sônia.
Não quis ser uma Emma à brasileira, não pensei muito, FIZ. Uma semana já estávamos morando em um pequeno apartamento. Os cinco meses que aquele mesmo corpo que agora agonizava soube me dizer o que é ser mulher,eu…… passei a viver mais como nós e minha subversiva existência pôde enfim ser compartilhada.
Indeléveis é a palavra perfeita para dizer sobre esses dias, lembro-me nitidamente de todos eles.Dos lençóis que foram testemunha do nosso amor, às pessoas que nos julgaram loucos, por querer destruir nosso tédio. Mesmo que esse corpo que me amou chegue ao limite existencial , essa linda ferida que ele me deixou, não sumirá,ela me deixou mais bela, mulher e menos prudente.
Havia passado dois que Sônia aguardava pela voz daquele que a tornou imprudente.Não pôde ouvi-la.Quando, de madrugada, acordou devido ao barulho da janela, viu que o símbolo de seu despertar venusiano tinha partido e com ele o seu mapa sentimental.

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