Contos Insanos

17

de
setembro

Lembranças sobre um corpo

Aquele corpo lânguido, mole e imóvel repousante sob aquela cama me fez lembrar das silenciosas e nadificantes árvores do parque da cidade. Não parecia que esse mesmo corpo tivesse sido capaz de me fazer mudar totalmente a máxima feminina que diz que todos os homens são iguais.
Alisando as suas longas tranças que cobrem totalmente a sua negra nuca, Sônia observava o homem que durante toda a vida lhe foi fiel.
-Fiel?-pensava ela
Como pude e ainda posso acreditar nisso. Será que tenho piedade ou é a sinceridade que eu não aceito engolir? Isso que ocupa essa leve e consistente cama não foi igual para mim. Ele, sem abstração, desiagualdou minha vida. Deixou-a diferente, contudo simples e necessária como um copo d’água.
Eu não me lembro muito bem a primeira vez em que ele me disse que me amava sinceramente. Nenhuma mulher lembra. Finge saber e torna isso uma coisa sagrada para os homens, estes bobos como são acreditam nisso, afinal não sabem serem cínicos como nós mulheres.
Digo isso, pois somente a mulher é capaz de passar cinco anos com um homem, como eu passei, dizendo-lhe que sente orgasmos múltiplos quando na verdade múltiplos são os seus amantes.
Tive muitos, mas somente um soube me fazer compreender porquê o homem é um mal necessário.São bobos, frágeis, mas não iguais. Talvez a explicação para essa lenda seja de que nós, mulheres, que tentamos os tornam iguais, pois sempre esperamos, inutilmente, que eles do alto de sua estupidez e virilidade peniana seja capaz de compreender o emaranhado pensamento feminino a qual um dia diz que um belo vestido vermelho com uma bolsa rosa é uma coisa fantástica, mas no outro dia já acha aquilo muito brega.
Assim foi com o meu único marido. Em um eterno dia de cinco anos eu pensei que ele era a combinação perfeita para a minha vida. Só no outro dia, ou melhor, em uma longa noite de setembro no cais da suja-bela Ribeira, eu pude perceber que a situação faz o ladrão.
Naquela tarde, Sônia teve quase que uma síncope onto-psicológica,não parecia situar-se em uma sala de hospital,mas em um plano estranho existencial onde tudo lhe vinha nítido na mente.As dores, os piedosos beijos, os ardentes corpos, tudo isso foi revivido. O resto de sua vida, os olhos negros observavam com certa melancolia.
É fantástico como não podemos considerar que anos sejam sinônimos de sabedoria, segurança. Como ele, com sua barba por fazer, voz rouca, pôde fazer em uma longa noite o que eu não soube encontrar em anos. Soube que simplesmente eu era a mulher Sônia, a menina Sônia.
Não quis ser uma Emma à brasileira, não pensei muito, FIZ. Uma semana já estávamos morando em um pequeno apartamento. Os cinco meses que aquele mesmo corpo que agora agonizava soube me dizer o que é ser mulher,eu…… passei a viver mais como nós e minha subversiva existência pôde enfim ser compartilhada.
Indeléveis é a palavra perfeita para dizer sobre esses dias, lembro-me nitidamente de todos eles.Dos lençóis que foram testemunha do nosso amor, às pessoas que nos julgaram loucos, por querer destruir nosso tédio. Mesmo que esse corpo que me amou chegue ao limite existencial , essa linda ferida que ele me deixou, não sumirá,ela me deixou mais bela, mulher e menos prudente.
Havia passado dois que Sônia aguardava pela voz daquele que a tornou imprudente.Não pôde ouvi-la.Quando, de madrugada, acordou devido ao barulho da janela, viu que o símbolo de seu despertar venusiano tinha partido e com ele o seu mapa sentimental.

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1 Comentário »

  1. Comentário por Nayaraaaaa — 17 de setembro de 2006 (22:30)

    Olha eu aquii.
    Eu ja comentei sobre esse texto com,kkk lembra que eu entendi tudo errado,pensei q o acamado fosse marido dela e nao era.
    Gostei bastante do texto.Alias existe alguma coisa que vc faça q eu nao goste,gosto de tudo??kkk

    Bisouss ;***

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